Luís Eduardo Assis

 

O Brasil é um país corrupto? Todo mundo tem uma resposta na ponta língua, mas a verdade é que não sabemos. Não há medida objetiva capaz de aferir a corrupção – da mesma forma, por exemplo, como medimos a temperatura, as chuvas ou o PIB. Há um sucedâneo, no entanto. A Transparência Internacional afere anualmente a percepção de corrupção (CPI) em quase cem países através de uma metodologia razoavelmente objetiva. O Brasil não está bem na foto. Estamos em 107º lugar, entre 182 países, empatados com Sri Lanka e atrás de Lesoto e Zâmbia. Claro, a percepção pode enganar. A descoberta de um grande escândalo pode elevar percepção das coisas podres e piorar o índice. Em ditaduras, por outro lado, pode acontecer da percepção de corrupção ser inibida pelo acesso restrito à informação.

A percepção de corrupção não vem sozinha. É um combo. Há forte correlação com outros indicadores de civilidade. A correlação entre a percepção de corrupção e o índice de democracia calculado pela Economist Intelligence Unit , considerando os últimos dados disponíveis, é de 77,1%. Nesse indicador, o Brasil também tem posição menos que espetacular. Estamos na 57ª posição, entre 167 países avaliados, entre a Croácia e a Namíbia. O CPI também pode ser explicado pelo índice de desenvolvimento humano (IDH), calculado pela ONU. Aqui o Brasil ocupa o 84º lugar, entre a Colômbia e o Palau, um pequeno país na Oceania. A correlação entre a percepção de corrupção e o IDH também é muito alta, mais de 71%. Também é significativa a correlação entre o CPI e o índice de liberdade de imprensa, calculado pela organização Repórteres sem Fronteira, 65%. Nesse quesito, o Brasil está na posição 63 entre 180 países, o que não orgulha ninguém. As altas correlações entre estes indicadores sugerem que estamos falando de um mesmo fenômeno, que se manifesta com múltiplas faces.

Pesquisa recente da Ipsos mostra que a corrupção é a segunda maior preocupação do brasileiro, atrás apenas da criminalidade. O tema da corrupção reflete um conjunto de vulnerabilidades. Seu escopo vai além da qualidade moral de um governo, até porque se há corrupção no setor público é porque há corruptores no setor privado. O problema é de toda a sociedade e seu enfrentamento requer o robustecimento de instituições democráticas de controle. Mais que isso, seu combate exige a intolerância, total e irrestrita. A corrupção não tem geração espontânea. Ela é cultivada no lodo que fermenta o patrimonialismo e as relações espúrias entre o público e o privado. A elevada percepção entre os brasileiros denota a desconfiança nas instituições e pavimenta o terreno para discursos moralistas que propugnam por soluções tão simples quanto ineficazes. Tempos difíceis.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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