Política monetária e reeleição
Luís Eduardo Assis
O mercado financeiro tem lá as suas cismas. Antes da decisão da última reunião do Copom, havia quase unanimidade que o Banco Central deveria cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. Cordata, como lhe convém, a autoridade monetária assim fez. Apenas para ser atingida em seguida por uma saraivada de críticas. O paradoxo tem lá sua lógica. Em primeiro lugar, adivinhar o que será feito não implica concordância. Além disso, a julgar pela simplória cartilha que rege os movimentos de juros em um regime de metas de inflação, há poucos argumentos para o corte de juros. O minueto do Copom é uma coreografia tão bem ensaiada que talvez ele seja um dia substituído por IA. Se a economia está aquecida, há riscos de choques externos e os analistas econômicos preveem (sabe-se lá como) que a inflação no futuro estará acima da meta, sobe-se a Selic. Do contrário, ocorre o inverso. Não é muito mais do que essa simplificação exagerada. O problema, já apresentado nesse espaço, é que a eficiência dessa política anti-inflacionária em um país com as características do Brasil é diminuta. Como estamos muito expostos a oscilações de preços externos, somos ainda uma economia indexada e, principalmente, os juros altos convivem com déficits fiscais renitentes e copiosos, o impacto da Selic sobre o IPCA é rarefeito. O IPCA anual até maio, na casa dos 4,7%, só não foi maior porque o índice dos produtos comercializáveis, que não depende dos juros, se contentou com parcos 2,3%. A inflação de serviços, mais exposta ao nível de atividade, está rodando a 6% ao ano. Juros altos não foram capazes de desacelerar a atividade a ponto de impactar a inflação. Esse é o quadro: os juros altos pouco funcionam para conter a inflação no contexto de uma expansão fiscal, parafiscal e creditícia que atende a objetivos eleitorais. O jogo é conhecido. Vale tudo para ganhar a eleição. O resto fica para depois. Além disso, o Banco Central deve ter percebido que juros ainda mais altos, como parece propor a cartilha da Faria Lima, poderiam deflagar uma crise de crédito de grandes proporções, considerando o alto grau de endividamento das famílias e das empresas. Isso não convém, ainda mais agora, O resultado que esse conflito entre duas forças antagônicas proporciona é a prevalência de juros estratosféricos, que cevam os investidores e agudizam instantaneamente a concentração de renda – ao contrário do que propugna o PT.
É preciso discutir como elevar a potência a política monetária. As regras que criamos têm servido apenas para asfixiar os devedores e enriquecer os que já são ricos. Há muito a fazer, mas no cardápio de medidas necessárias vale a pena incluir o fim da reeleição de mandatos presidenciais. Não resolve, mas ajuda.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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