Luís Eduardo Assis

 

Se havia dúvida, a ex-presidente Dilma esclareceu ainda em 2013, quando disse que “nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. São os males da reeleição; vale tudo. Trata-se do velho dilema intertemporal estudado pela teoria econômica. Desconta-se o futuro a uma taxa muito alta, já que pior do que ter que enfrentar problemas fiscais no próximo governo é perder a eleição agora e deixar os apanágios do poder. O futuro fica para depois. O presidente Lula sabe bem disso. Na volta a gente compra. Convencer um governante a ser austero em ano de eleição é o mesmo que alertar um prisioneiro condenado à morte sobre os malefícios do fumo.

O quadro econômico atual deveria favorecer o governo. Não há crise e a vida como ela é, tudo somado, está melhor. A deterioração fiscal, nosso problema precípuo, não faz parte das preocupações quotidianas do eleitor, que não se dá ao trabalho de perder o sono com a trajetória da relação dívida/PiB. Desde a posse do presidente Lula em janeiro de 2023, a quantidade de trabalhadores com carteira assinada aumentou em 3,3 milhões, ou quase 10%, de acordo com os dados da Pnad. A taxa de desemprego, medida pela média de 12 meses, caiu de 9,5% em 2022 para 5,9% agora. O rendimento médio, também pela média de 12 meses, subiu quase 15% acima da inflação entre dezembro de 2022 e janeiro de 2026. Nada mal – mas insuficiente. A pesquisa mais recente da Genial Quaest mostra que apenas 31% dos pesquisados têm uma avaliação positiva do Governo Lula. Mesmo a recente isenção do imposto de renda teve efeito acanhado. O Ministério da Fazenda estimou um aumento da renda de R$ 25,8 bilhões em 2026, favorecendo 10 milhões de beneficiários, mas a mesma pesquisa indica que 62% das pessoas que ganham de 2 a 5 salários-mínimos disseram que não foram favorecidas pela medida. Como a regra é que vale tudo, tudo vale agora para aprovar a redução da jornada de trabalho. É a última cartada do diabo. Vai dar certo dessa vez? É duvidoso. Se for adiante, poderá ter impacto sobre a inflação, o que seria um tiro no pé. Sem falar no eventual desconforto de encontrar lojas fechadas no final de semana. A inflação também será impactada pela guerra insana no Oriente Médio. O governo petista não é culpado, mas sabe que pagará a conta – daí o desespero de promover mais uma rodada de medidas populistas. O fato é que benefícios econômicos não têm encontrado eco nas preferências eleitorais. Não há lealdade emocional nem identificação de valores com o PT, que envelheceu mal. A fadiga com um discurso poroso e antigo supera a percepção dos benefícios. Para piorar, a sensação de que a corrupção grassa à solta sempre prejudica a imagem de quem está no comando. Fazer o diabo não basta.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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