Luís Eduardo Assis
As marcas da atual gestão da economia saltam aos olhos e, curiosamente, não alimentam maiores controvérsias. Temos um crescimento econômico menos que exuberante. O crescimento do PIB nesses quatro anos de Lula 3 deve ficar em pouco mais que 11%. É bem menos que nos tempos de Lula 1 (14,8%) ou Lula 2 (19,7%), mas o suficiente para derrubar a taxa de desemprego para mínimos históricos. O crescimento nanico tem relação com as taxas de juros exorbitantes. Estimam-se os juros reais em Lula 3 na casa de 37%, o que é menos que os assustadores 53% de Lula 1, mas fica acima dos 24,3% de juros reais em Lula 2. De diferente mesmo temos o resultado fiscal. O déficit primário de Lula 3 está previsto superar R$ 400 bilhões (em valores não ajustados pela inflação), o que contrasta com os polpudos superávits fiscais de Lula 1 e Lula 2. O resultado dessa mixórdia é o crescimento acelerado da dívida pública. A relação entre a dívida bruta e o PIB pode fechar o ano acima de 83%, o que representa um crescimento de quase 12 pontos percentuais durante a atual gestão (esse indicador era de 55,5% no final de Lula 1 e, mais interessante, 51,8% no final de Lula 2).
O crescimento da dívida pública é o núcleo duro do debate econômico. A ideia de que esse tema será central nas campanha presidencial padece, no entanto, de uma ingenuidade comovente. O eleitor não está preocupado com tamanha abstração. Não é assim que funciona. Ajuste fiscal requer corte de despesas e ou aumento de receita. Cortar despesas públicas pode afetar beneficiários que votam – e não vão gostar da ideia. Desatrelar as aposentadorias do salário-mínimo, por exemplo, faz total sentido econômico, mas seria suicídio político aventar essa ideia na campanha. O mesmo ocorre com subsídios a setores importantes da economia – que patrocinam bancadas inteiras no Congresso. Elevar impostos, da mesma forma, nunca foi algo popular, mesmo quando o alvo é o ‘andar de cima’. O desatino fiscal que nos assola é obra coletiva. O papel protagonista cabe a um governo pautado pelo assistencialismo populista. Mas são coadjuvantes de peso os setores da sociedade que se organizaram para capturar subsídios, sinecuras e privilégios. O orçamento federal de 2026 prevê a concessão de R$ 612,8 bilhões em benefícios tributários, algo como 4,5% do PIB. Ninguém vai ganhar votos prometendo corte de vantagens e regalias. Não, não há encontro marcado com o ajuste fiscal. Outros temas ocupam a pauta dos eleitores e dos grupos de pressão. Vamos levando. Não há liderança política no horizonte capaz de trazer esse assunto ao centro do palco. Ninguém sabe ao certo o limite máximo da dívida pública. Medidas paliativas podem ser tomadas, mas tudo sugere que vamos pagar para ver.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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