Luís Eduardo Assis
Jamais deixe que a verdade atrapalhe uma boa história. A frase, atribuída a Mark Twain, ilustra com perícia a natural tendência em melhorar as coisas áridas que poderiam ter uma explicação mais intrigante. É sempre tentador usar a imaginação para entender algo difícil ou terrivelmente banal. A arte é necessária porque a vida não basta, disse Ferreira Gullar (que, na verdade, se chamava José Ribamar Ferreira).
Pesquisa recente do DataFolha mostra que 33% dos pesquisados não acreditam que o homem já foi à lua. Indicadores econômicos também são vítimas indefesas de teorias conspiratórias que melhoram a sua história. A inflação, por exemplo, é particularmente vulnerável. O IBGE divulgou recentemente o IPCA de março. Ficou em 0,88%, ou 4,1% em doze meses, um número ainda baixo para o padrão brasileiro. As pessoas acreditam nesses números? Bem, o fato é que a tese de que esses números são manipulados por economistas inescrupulosos ligados ao governo é mais saborosa (“é claro que a inflação é muito mais alta, basta ir ao supermercado para ver”). Os adeptos da versão conspiratória também se atribuem a satisfação de zombar de quem não acredita. “Você acha que o homem foi à lua? Quanta ingenuidade”. Dá um ar de sabichão duvidar das informações oficiais. A realidade, no entanto, é mais aborrecida. É apenas tolo imaginar que o IPCA seja manipulado. O IBGE é composto por profissionais de qualidade que certamente denunciariam qualquer tentativa de fraude (ainda mais porque vivem às turras com o presidente petista do Instituto). A democracia brasileira não é tão frágil assim. Claro, a inflação medida é uma estimativa e, nesse sentido restrito, o índice está sempre errado. Mas é a aproximação que temos e segue metodologia consagrada. O IPCA poderia ser melhorado. O peso dos vários itens é atualizado apenas esporadicamente pela Pesquisa de Orçamento Familiares (POF). A última POF é de 2017-2028 e uma nova versão deve ser divulgada brevemente. Como o peso do IPCA é no período base, o índice não capta o efeito substituição. Em português: se o preço da alface sobe muito e ela pode ser substituída por chicória, mantendo a mesma satisfação do consumidor, o índice considerará o mesmo peso anterior, ignorando a troca por produto similar. Assim, por construção, o IPCA tende a superestimar a inflação, contrariando o senso comum. Atualizações mais frequentes da POF seriam bem-vindas e poderiam capturar esse efeito com maior regularidade. O tema é tão importante quanto árido. Acreditar no “lado oculto” da inflação pode ser tentador, mas reflete apenas uma atitude pueril. Uma mentira é apenas uma verdade que esqueceu de acontecer, dizia Mario Quintana. Mas o IPCA faz o possível para ser sincero.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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