Luís Eduardo Assis

 

A expectativa de inflação dos economistas consultados pelo Bacen para 2026 vem subindo há onze semanas consecutivas e já supera 5%. As previsões dos economistas servem apenas para melhorar a reputação das cartomantes. Ainda assim, a previsão de alta preocupa. O impacto da guerra do Iran ainda não chegou nos preços, graças ao malabarismo fiscal que criou subsídios para os combustíveis, mas a inflação já sobe. O IPCA-15 bateu em 4,6% na variação anual até maio, bem acima dos 3,9% de março.

Não vai ser fácil o Bacen segurar essa bagaça. No modelo atual, a manipulação da taxa Selic é o único instrumento utilizado pela autoridade monetária. Como os juros podem conter a inflação? No site do Banco Central, encontramos uma explicação clara e didática. Ainda assim, não é fácil entender. São cinco os canais de transmissão da política monetária sobre os preços. O primeiro é o impacto sobre investimento e consumo, que seriam reprimidos com a elevação da Selic. Mas os investimentos são baixos há muito tempo, sem falar que há juros subsidiados para esse tipo de gasto. O consumo, por sua vez, é influenciado pelo aumento das transferências do tipo Bolsa Família e BCP. Por justos que sejam, esses gastos reduzem a potência da alta dos juros. O canal de crédito é o segundo mecanismo. Aqui também o efeito é limitado. As concessões de crédito ainda crescem a uma taxa de 9% ao ano, puxadas pelos bancos públicos. O Desenrola 2 deve aumentar essa velocidade. O efeito dos juros sobre o câmbio é citado como terceiro canal de transmissão. Juros altos provocariam a valorização do Real, barateando as importações. Mas a correlação entre câmbio e juros não é tão forte (-24,8% nos últimos 20 anos). O câmbio é influenciado mais pelo cenário internacional do que pela Selic. O quarto canal seria dado pelas expectativas. Mas nem todos os negócios podem impor suas expectativas, dada a concorrência, e o Bacen monitora apenas as expectativas dos sabichões da Faria Lima. Por fim, temos o canal da riqueza. Juros altos reduziriam o preço de ativos, comprimindo os gastos das famílias. Mas as aplicações pós-fixadas, a começar pelas LFTs, nossa “relíquia bárbara”, fazem com que a elevação de juros aumente imediatamente a riqueza dos investidores, invertendo a relação causal.

Nessas condições, o Bacen pode pouco. O Programa do VIII Congresso do PT, realizado em abril de 2026, propõe a revisão (claro, para cima) da meta de 3% para a inflação (página 48) e uma “meta estrutural de juros abaixo de 10%”(página 49). São palavras bonitas, mas isso só será possível quando a política monetária tiver mais potência, o que exige, antes de tudo, a consecução de uma política fiscal austera e verossímil. Até lá, é turbulência na certa.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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