O Brasil vem se arrastando há muito tempo. Não é uma queda livre, mas uma marcha agônica, em ritmo de lesma, rumo à mediocridade. No conceito de paridade de poder de compra, nosso PIB per capita em 1990 era de US$ 6 687,90, 12% acima da média mundial e 575% acima do índice da China. Em 2024, a China tinha elevado o PIB per capita em 2 636% e estava 21,3% acima do Brasil. A média mundial passou de 83,7% do indicador brasileiro em 1990 para 10% acima em 2024. Se tivéssemos crescido ao mesmo ritmo da China (doce ilusão) nosso PIB per capita seria hoje 7% maior que o dobro do PIB per capita americano. O fato é que ficamos para trás.
Há razoável consenso que o maior óbice ao desenvolvimento hoje está no trato das contas públicas. A ideia de que esse é um problema do governo é simplória. O descontrole reflete a forma contraditória que escolhemos para nos organizarmos como sociedade. Criamos uma geringonça de interesses setoriais antagônicos cuja solução desagua em um déficit perene. Um ajuste fiscal não é inevitável. Em primeiro lugar, déficit público não é tema das preocupações do eleitor. Austeridade, ao contrário, pode tirar votos. Nenhum candidato que tenha esperança de vencer a próxima eleição poderá prometer o fim dos ganhos reais para o salário-mínimo ou sua desvinculação com as aposentadorias, pensões e benefícios. Comprometer-se a acabar com subsídios também gera pouca simpatia. O benefício do Simples, por exemplo, custa muitos bilhões por ano, mas favorece cerca de 23 milhões de contribuintes. Sem chance de desapontar esses eleitores. Subsídios à agropecuária também são vultosos, mas o setor é representado pela maior bancada suprapartidária no Congresso, com 350 deputados e senadores. Chance zero. Há hoje projetos no Congresso, que propõem o aumento – não a redução – desses benefícios. Claro, é possível atacar os supersalários. Tem apelo popular. Mas seria um pequeno grão de areia na vastidão desértica do déficit, além de poder despertar a ira eterna do Poder Judiciário. Do lado da receita, mexer nas (injustas) deduções do IRPF significaria a ruptura do apoio político da classe média. Pode-se pensar em um imposto federal sobre heranças e o sempiterno imposto sobre grandes fortunas. Não tira votos, porque atinge poucos, mas também não resolve a encrenca fiscal. O fato é que por mais que os economistas listem em suas planilhas as formas de executar um ajuste fiscal, nada de significativo poderá ser feito sem uma nova concertação política – que não está à vista.
Dizem que se não fizermos o ajuste fiscal perderemos o rumo. O rumo já perdemos há muito tempo. O que resta de factível é meia dúzia de medidas paliativas e protelatórias. Evitam o colapso, mas não resolvem. Temos um longo passado pela frente.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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