Luís Eduardo Assis
Em ano de eleição, a possibilidade de que a inflação suba é sempre uma má notícia para quem não é da oposição. Nesse sentido, a guerra intempestiva e insana que o os EUA resolveram travar com Irã ameaça as pretensões do presidente Lula, que já deixou claro que topa tudo para evitar maiores danos agora – mesmo que o custo sejam arcar com prejuízo muito maior logo mais adiante. No mercado internacional, a guerra não deixou por menos: o preço do petróleo subiu mais de 40% no mês de março, uma das maiores altas das últimas seis décadas. O impacto sobre a inflação americana já ameaça a hegemonia dos republicanos nas eleições que ocorrerão em novembro.
E aqui? Aqui não está nada bem. O preço do diesel S10 subiu 24,3% em março e alcançou o maior nível desde 2022. O peso direto desse combustível no IPCA é de apenas 0,23%, mas o problema maior é o impacto indireto, via aumento no custo do transporte. A gasolina, malgrado todas as mandracarias do governo, também poderá subir de forma expressiva. A guerra afetará ainda o custo dos fertilizantes, em grande parte importados, o que alcançará o preço dos alimentos. Mas poderia ser muito pior. No meio desse mafuá, a cotação do dólar está surpreendentemente bem comportada. No começo de abril, o dólar opera a taxas similares à do fechamento de fevereiro, antes do ataque ao Irã. No primeiro trimestre, o dólar caiu 5,6%, o que contraria a antiga crença de que em momentos de agrura, o dólar é um porto seguro. Sequer a volatilidade da moeda americana aumentou. No primeiro trimestre, a volatilidade anualizada do dólar ficou em 9,9%, a segunda mais baixa dos últimos dez anos. O fenômeno é mundial. O DXY é um índice que mede a força do dólar contra as seis principais moedas de países desenvolvidos. No mês passado, no meio da confusão, o dólar se desvalorizou 0,55% contra esse indicador. Os bancos centrais compram cada vez menos dólares para comporem suas reservas. A chave desse enigma pode ser encontrada no artigo de Kenneth Rogoff na revista The Economist (“This time is really different”,5/5/2025). Para o ex-economista-chefe do FMI, a perda do poder do dólar é resultado da longa sequência de políticas tresloucadas de Trump. As ameaças ao Fed, a trajetória insustentável da dívida pública, a ameaça ao Estado de Direito e o culto ao desatino como método acabaram por dinamitar a primazia do dólar, que deixou de ser um refúgio em momentos de anarquia. Eis aqui a irônica contradição: o desvario de Trump é tão abrangente que acaba por beneficiar a economia brasileira. Em tempos normais, uma guerra no Oriente Médio deveria fazer disparar o dólar, o que, combinado com o aumento do preço do petróleo, faria um estrago muito maior do que estamos vivendo hoje.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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