Luís Eduardo Assis

 

A essa altura, até as capivaras do rio Pinheiros conversam nos sábados à tarde a respeito da flagrante contradição da política econômica atual: de um lado, juros altos para conter a demanda e domar a inflação; de outro, gastos públicos copiosos que impedem a contração da demanda. A ironia, notam os roedores, é que ao manter o nível de atividade da economia, a expansão fiscal exige juros ainda mais altos, criando uma poderosa alavanca de concentração da renda (algo que um governo do PT supostamente deveria combater).

Por mais que esse seja o núcleo duro do problema, é possível avançar na discussão. Há mais na explicação dos juros altos do que apenas a política fiscal. A manipulação da Selic, como forma única de combate à inflação, é pouco eficiente nas condições atuais. O índice de preços dos produtos comercializáveis calculado pelo BC, por exemplo, reflete basicamente as variações nos preços internacionais das commodities, que não respondem à taxa Selic. O mesmo ocorre com os preços administrados. Esses dois itens podem explicar (em um modelo de regressão linear múltipla) quase 90% da variação anual do IPCA dos últimos 20 anos. Em trabalho recente (“A anomalia na política monetária do Brasil”, Made-USP), o economista Demian Fiocca busca demonstrar porque a ineficiência da política monetária também explica o alto patamar da Selic. Em comparação com países em desenvolvimento que adotam o regime de metas, os juros básicos no Brasil foram 638% mais altos no período 1999-2023. A razão seria a baixa eficácia dos canais de transmissão da Selic, causada, entre outros fatores, pelo grande volume de títulos com juros flutuantes, o que gera um efeito renda positivo quando a Selic se eleva. Ou seja, há uma injeção de recursos na economia (apropriada pelos investidores) sempre que os juros sobem, diluindo o impacto contracionista sobre a demanda. A autoridade monetária deve, portanto, praticar juros mais elevados e por mais tempo para que a terapia tenha eficácia. O mesmo efeito ocorre na oferta de crédito. Se boa parte dos títulos detidos pelas tesourarias são pós-fixados, o aumento da Selic tem “efeito muito fraco ou mesmo nulo na postura dos bancos e, assim, na contenção da oferta de crédito”, registra D. Fiocca. Isso, claro, sem considerar que os bancos públicos são estimulados a adotar políticas de crédito que contrariam o objetivo contracionista do Banco Central.

O debate é amplo e necessário. Ganharíamos todos se pudermos ir além das planilhas simplórias dos ‘traders’ da Faria Lima, ainda dentro dos cânones da macroeconomia convencional. O tema interessa a todos. Nesse sentido, é muito oportuna a indicação de dois economistas com tradição acadêmica para a diretoria do Banco Central.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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