Luís Eduardo Assis

 

Já há muito, os economistas criaram conceitos que analisam o comportamento das empresas e dos indivíduos. A meta fundamental no caso das empresas é maximizar o lucro, sujeito às condições de mercado e à melhor combinação entre capital e trabalho. Os consumidores, por sua vez, almejam maximizar sua satisfação, sujeitos às restrições de suas rendas. Uma empresa pode temporariamente até vender um produto com prejuízo para aumentar sua participação no mercado. Mas o lucro é sempre o objetivo final. Da mesma forma, uma pessoa pode gastar dinheiro com filantropia, mas continua maximizando sua satisfação, que pode ser expressa no reconhecimento de seus pares (ou, para quem é afeito à ideia, na expectativa de um cercadinho Vip no céu). Há propósito, há lógica – eis o pressuposto da análise econômica. O mesmo arcabouço pode ser expandido para a análise política. Um político quer maximizar o número de votos. Um populista fará tudo agora para ganhar as próximas eleições, mesmo que tenha que enfrentar uma crise logo depois. Há também quem esteja disposto a defender teses impopulares, mas consistentes, na expectativa de que mereça uma menção honrosa nos livros de História do futuro. Também podemos imaginar (talvez sem dificuldade) que alguns políticos queiram apenas ficar ricos; mesmo assim, em todos os casos haverá um objetivo e várias restrições. Haverá, ainda, lógica e propósito.

Nada disso serve para entender a atuação do presidente Trump. O tarifaço de abril revela noções toscas de finanças públicas e provocou aumento de preços. O sequestro de Maduro deu acesso a reservas de petróleo de baixa qualidade, cujo custo de refino supera o preço atual. Não se ganha dinheiro assim. Nem votos. O ataque ao Fed exigindo corte de juros (com uma violência de dar inveja ao Partido da Causa Operária) gerou desconfiança no dólar, que pode deixar de ser a moeda de referência do mundo, com o que os EUA perdem muito. Por fim, o desvario de ameaçar a Groelândia (que Trump já confundiu com a Islândia) gera estupor no eleitorado americano e ameaça a liderança dos republicanos nas próximas eleições. Não se ganham votos assim. Nem dinheiro, já que a economia americana não está em crise e não precisa de nada disso. Nem mesmo o próprio presidente ganha. A criptomoeda que Trump lançou (em si, uma aberração) teve uma desvalorização de mais 90% nos últimos doze meses.

A questão, portanto, não é descobrir a lógica por trás das decisões do presidente americano. Ela não é existe. Melhor debater como uma democracia sólida como a dos EUA abriu brechas para uma gestão tão tresloucada. De resto, as atitudes de Trump devem ocupar psicólogos e psiquiatras. É deles que virão as melhores explicações.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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