Luís Eduardo Assis
Depois de queimarem suas pestanas, torturarem seus modelos e consultarem seus xamãs, os economistas do mercado financeiro concluíram na semana passada que a taxa Selic no final do próximo ano será de 11,75%. Essa é a mediana das previsões da pesquisa Focus, coletada pelo Banco Central. Eles estão dizendo que veremos os juros caírem em 2023. Mas é isso mesmo o que pensa o mercado financeiro? Não exatamente. No interbancário era possível negociar juros com prazo de um ano com taxas acima de 14%, ou seja, o mercado – não os economistas – pensa que a taxa Selic vai subir ao longo de 2023. Se 14% é a taxa que equaliza oferta e demanda isso significa que uma das partes acredita que os juros serão maiores que esse valor, e, portanto, toma dinheiro, ao passo que a contraparte acha que 14% é muito, logo está disposta a aplicar recursos nesse nível.
Duas qualificações podem explicar essa discrepância um tanto esquizofrênica. A primeira é que os economistas não participam diretamente do mercado. São comentadores da partida, mas não batem pênalti. A segunda qualificação é que a influência que os economistas exercem sobre os operadores – que põem o pescoço na reta – é, com benevolência, escassa. Se os economistas convencessem quem dá as ordens de compra e venda a diferença entre as taxas prevista e negociada se estreitaria rapidamente.
O fato é que é preciso imaginação de economista para ver os juros caindo muito em 2023. O novo governo ainda não entrou, mas já chutou a porta. Resolveu fulanizar sua relação com o mercado, acreditando que os preços representam uma resistência ideológica ao conjunto de ideias econômicas que enfeitiça o PT. Bobagem. Não é por pirraça pós-eleitoral que há gente graúda tomando dinheiro por um ano a mais de 14%. Quem faz isso simplesmente acha que vai lucrar. É esse o nome do jogo. Outra pesquisa de opinião (Prisma Fiscal, essa conduzida pelo Ministério da Economia) mostra que a previsão de superavit primário de R$ 64 bilhões em 2022 deve se converter em um déficit de R$ 116 bilhões em 2023. A expansão fiscal, por mais meritórios que sejam os gastos, reduz o espaço de manobra para a queda dos juros. Jurar continência fiscal é muito pouco. O Brasil precisa, logo, de regras factíveis e críveis que impeçam o desarranjo das finanças públicas.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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