Luís Eduardo Assis

 

Sem muito cerimônia, o Banco Central elevou a taxa Selic para 15% ao ano. Já era esperado pelos operadores de mercado (mas não pelos analistas, que dão palpites, mas não têm fichas para jogar). Parece tudo muito simples, já que a inflação corre muito acima da meta e a economia mostra sinais de vitalidade. Só que não. Juros tão elevados, mesmo quando necessários, trarão graves efeitos colaterais.

É preciso atentar para o tamanho da encrenca. Olhando para trás, os juros reais calculados pela diferença entre a Selic e o IPCA nos últimos doze meses ficaram em 6,1%. Olhando para frente, a diferença entre juros prefixados (que espelham a estimativa da Selic) e a inflação projetada sobe para quase 10%. O que está ruim vai piorar. Duas são as consequências principais de juros tão altos. A primeira é agravar a enorme concentração de renda e riqueza que nos macula. Relatório recente do banco UBS (“Global Wealth Report 2025”) estima em 433 mil o número de brasileiros que têm patrimônio superior a US$ 1 milhão. Esse número é compatível com as estatísticas da Anbima, que reporta que investidores do segmento “Private” de bancos e corretoras detém 763 mil contas, no valor total de R$ 2,45 trilhões (lembrando que uma pessoa pode ter várias contas). Para esse grupo de felizardos, a Selic a 15% é viver o céu na terra (e eles ficam no cercadinho Vip). A outra implicação dos juros exorbitantes está nas finanças públicas, que espelha, com sinal trocado, a riqueza privada. O Banco Central estima que um aumento de 1 ponto percentual na Selic implique uma elevação de R$ 50 bilhões na dívida pública. A despesa de juros do governo federal pode atingir R$ 1 trilhão em 2025, rivalizando com os gastos da Previdência (que é o maior item do orçamento). Juros exorbitantes retroalimentam o crescimento da dívida pública. A Instituição Fiscal Independente (IFI) prevê que a relação Dívida bruta/PIB, que era 71,7% no final do governo Bolsonaro, passe para 82,4% no final de 2026 (seguindo para 100% em 20230 e 125% em 2035). Uma dívida maior comandará pagamento maiores de juros – o que aumentará ainda mais a dívida.

Mesmo a exorbitância dos juros não garante a queda da inflação. Analistas de mercado estimam que o IPCA de 2025 ficará 0,4 pontos percentuais acima da inflação de 2024. Antes que o remédio vire veneno, é preciso rediscutir a baixa eficácia dos juros no combate à inflação no contexto de uma economia altamente vulnerável a preços externos, ainda fortemente indexada e onde um ajuste fiscal crível é bloqueado pela falta de consenso político que decrete o fim de privilégios. Inventamos uma geringonça. Ela pode nos devorar.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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