Luís Eduardo Assis

 

Está lá nas manchetes, todo mundo viu: a chapa está esquentando para Lula. A pesquisa Genial-Quaest mostra que o percentual de aprovação do presidente recuou de 56% para 51% entre fevereiro do ano passado e fevereiro de 2024. A desaprovação disparou de 28% para 46%. Entre os evangélicos, esse índice chega a 62%. Mesmo entre as pessoas mais pobres, que ganham até dois salários-mínimos, a desaprovação aumentou de 21% para 36%. Em fevereiro de 2023, 30% dos entrevistados achava que a economia tinha piorado nos 12 meses anteriores. Esse número agora passou para 38%. Tudo muito ruim.

Mas o que dizem os indicadores econômicos? A história que eles contam é diferente. A inflação em doze meses (até janeiro; fevereiro ainda não foi divulgado) caiu de 5,8% para 4,5%. Parece pouco, mas o índice de Alimentação no Domicílio, que pesa muito no bolso das pessoas de baixa renda, despencou de 12,3% em janeiro de 2023 para apenas 0,7% agora. O preço da picanha, diz o IPCA do IBGE, recuou 10,8% nos últimos doze meses. O salário-mínimo, por sua vez, atingiu em janeiro o maior valor real de toda a série histórica. Nunca foi tão alto. Cresceu 4,5% em doze meses. E o desemprego? Também recuou durante 2023 e o índice para janeiro último foi o menor desde 2015 para esse mês. Pelas contas do IPEA, a inflação para as pessoas de renda muito baixa (até dois salários-mínimos) caiu para quase metade no ano passado, de 6,4% em 2022 para 3,3% em 2023. Isso sem falar que que o valor gasto no Bolsa Família cresceu 47% no ano passado, ou R$ 55 bilhões. Em relação ao primeiro ano de Bolsonaro, esse dispêndio aumentou 345%.

Nem tudo é explicado pela economia. O bordão cunhado por J. Carville, assessor na campanha de Clinton em 1992 (“it is the economy,stupid”) nem sempre se confirma. É claro que, quando torturados, os indicadores econômicos confessam tudo o que deles se deseja, mas parece claro que o quadro econômico não piorou e conflita com a percepção das pessoas – e percepção é realidade, já dizia Lee Atwater, outro analista político americano. O que esse descolamento sugere é que Lula está perdendo a batalha da comunicação ao buscar ter a palavra em debates para o quais não foi chamado. Ganharia o governo se o presidente parasse de tentar dar palpites infelizes nas pautas internacionais e falasse mais com os brasileiros. Se o diálogo com o cidadão comum não for restabelecido, a chapa pode esquentar ainda mais, afetando o desempenho do PT nas eleições do final do ano. A ver nos próximos meses.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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