Muitas dúvidas (e um consolo)

Luís Eduardo Assis

 

Todos sabiam que todo mundo sabia. Sabia o que? Que todos sabiam. A liquidação do Banco Master se encaixa no intrigante conceito de conhecimento comum que Steven Pinker explora em seu novo livro (“When Everyone Knows that Everyone Knows”, 2025”). A surpresa não foi o desfecho, mas o tempo que foi preciso para se fazer o que todos sabiam que precisava ser feito.

Afora a crônica policial, que tem tudo para ser picante, o Banco Central tem coisas a explicar. Há ainda muitos fios soltos. Foi frango do goleiro? Os alarmes do painel de controle acionaram as sirenes. A própria Febraban teria alertado a autoridade monetária. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o mesmo período de 2025, a captação do Bradesco subiu 12,3%. A do Banco do Brasi aumentou quase 15%, mas ficou atrás do Itaú, com incremento de 17,6%. Já a captação do Master subiu 212%. Aonde foi esta dinheirama? Boa parte para ativos ilíquidos, sem precificação de mercado, o que facilita a atribuição de valores fictícios, fabricando lucros de igual teor. Não era tão difícil de perceber. As distorções saltavam do papel e mordiam os olhos. Até que ponto a autoridade monetária desdenhou esse crescimento colossal na ilusão – ideológica, por suposto – de fomentar a desregulamentação e a concorrência bancária é tema que merece ser aprofundado. A auditoria externa também deve ter histórias para contar ao respeitável público. No seu relatório de 2024, a KPMG registra que a demonstração financeira “apresenta, adequadamente, a posição patrimonial e financeira do Banco Master”. Também não se assustou com a precificação de ativos ilíquidos e cravou que “consideramos aceitável a mensuração e a avaliação da titularidade de direitos creditórios e precatórios”. Será mesmo? A agência de rating, por sua vez, também haverá de ter algo a dizer sobre nada menos que a elevação, em dois níveis, da nota do Banco Master para grau de investimento em outubro de 2024. Em seu relatório, a Fitch menciona, destemida, a estabilização do perfil financeiro do banco, “com níveis consistentes de liquidez e rentabilidade”. Sim, recentemente, a agência rebaixou o rating do banco para nível D, o pior da escala. Mas isso aconteceu depois do anúncio da liquidação. Assim não vale.

Em meio a muitas dúvidas, um consolo. O FGC, tudo somado, cumpriu o seu papel. Há muito a ser alterado nas regras de garantia – e os grandes bancos privados não vão poupar esforços para evitar uma nova roubada desse tipo. Vultosos recursos privados serão utilizados para compensar investidores que se enganaram (ou foram enganados?). Em um país em que todos sabem que todo mundo sabe que escândalos financeiros podem resultar em assalto aos cofres públicos isso não deixa de ser um avanço.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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