Luís Eduardo Assis
Não foi por convicção, nem sequer um ato solidariedade. Foi apenas por conveniência, senão obra do acaso. Mas o fato é que teremos um 2023 um gigantesco programa de distribuição de recursos para as pessoas mais pobres. O Bolsa Família, nos seus primórdios, representava um gasto de 0,35% do PIB entre 2008 e 2010. Passou para 0,39% em 2011 e girou em torno de 0,45% do produto entre 2012 e 2019. Pois o Auxílio Brasil, ou qualquer nome que venha a ter, deverá alcançar 1,4% do PIB, assumindo que o próximo presidente manterá o pagamento em R$ 600 mensais para 21 milhões de famílias. Serão cerca de R$ 150 bilhões, montante que poderá afetar o mercado de baixa renda e representar um poderoso lenitivo para parcela expressiva da população. Claro que há aberrações. O Cadastro Único foi destroçado, as condicionalidades deixaram de existir, perdeu-se o foco e a ideia de jerico de conceder o benefício por famílias, e não por pessoas, gerou enorme distorção. Entre novembro de 2021 e junho de 2022 o número de famílias com apenas uma pessoa no Cadastro passou de 2,2 milhões para 3,8 milhões. Será custoso reparar o que foi feito de errado. Mas tudo sugere que o dinheiro estará lá. E veio para ficar. Isso é bom.
Alguém poderia pensar que essa generosidade de ocasião poderá reduzir a desigualdade social. Menos, menos. Na outra ponta, os benefícios serão ainda maiores. Somos hoje vítimas de uma política anti-inflacionária baseada exclusivamente nos juros altos. Mesmo quando o aumento de preços é derivado de choques externos ou problemas climáticos, o único botão que se aperta quando a inflação acelera é o dos juros. Os juros reais em 2022 ficarão acima de 6% e no próximo ano poderão superar 7%. As despesas do governo federal com juros devem subir de R$ 587 bilhões esse ano para R$ 651,5 bilhões em 2023, 338% acima da despesa do Auxílio Brasil. Os ricos e bacanas serão os principais beneficiários da bolsa juros. De acordo com a Anbima, os clientes “Private” dos bancos (com investimentos, em geral, acima de R$ 2 milhões) detém um patrimônio de R$ 1,8 trilhão. Sem correr riscos, essas 144 mil contas poderão receber algo como R$ 230 bilhões no ano que vem. Criamos um sistema perverso de combater a inflação. Mesmo com o aumento do Auxílio Brasil, o governo brasileiro continuará sendo uma máquina de produzir desigualdades.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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