Luís Eduardo Assis
É crença inabalável a ideia de que os bancos ganham com a alta dos juros. Há até mesmo quem seja adepto da tese conspiratória de que eles pressionam o Banco Central para que os juros sejam sempre muito altos. De fato, os grandes bancos de varejo não têm tido maiores dificuldades para driblar o risco da inadimplência, que sobe quando a Selic aumenta, e apresentar resultados lustrosos. O lucro dos três maiores bancos privados alcançou R$ 75,3 bilhões no ano passado, com crescimento de 27% em relação ao ano anterior.
Mas a vida dos bancos de investimentos e corretoras não é tão simples. Com juros astronômicos pagos por papeis do Tesouro, os gestores da Faria Lima têm que rebolar para alocar os ativos dos clientes de forma a superar a Selic – aplicação que permite fácil acesso dos investidores através do Tesouro Direto, com alto rendimento, baixíssima volatilidade, liquidez diária e risco de crédito desprezível. Os gestores até que rebolam, mas a dança está muito feia. O índice que mede a rentabilidade dos fundos multimercados (IHFA, calculado pela Anbima) perde da Selic no acumulado do ano, perde nos últimos seis meses, nos últimos 12 meses, nos últimos 24 meses e nos últimos 36 meses. Isso significa que a alocação dos “fund managers” tem gerado um rendimento baixo, apesar de apresentar um risco muito maior. É como se os investidores fossem perguntados se eles preferem ser ricos, com saúde, ou pobre e doentes.
Eles têm optado pela primeira alternativa. Os saques nos fundos multimercados em 2024 atingiram R$ 356,7 bilhões, quase o dobro do ano anterior e o mais alto desde 2006. Como esses fundos cobram taxas de administração mais altas, isso resulta em forte queda na receita e, sim, dificuldades para os “faria limers”, que simplesmente não têm conseguido antecipar as tendências de mercado e comprar (ou vender) ativos de forma a superar a Selic. Os gestores têm, muitas vezes, certezas peremptórias quando prescrevem como resolver todos os problemas do Brasil. Mas quando se trata de mostrar resultados positivos na função para a qual são pagos, estão em dívida com os investidores. Nesse quesito, seguem seus colegas economistas, que também mostram um desempenho bem menos que espetacular na previsão das principais variáveis econômicas. Não vale colocar a culpa na alta volatilidade, um conceito usado de forma abusiva. O pior cenário para um gestor de recursos é, justamente, a falta de volatilidade, que limita as opções de compra e venda. O problema apenas é a contínua incapacidade do mercado em prever a trajetória dos preços dos principais ativos. Talvez esse desempenho minguado inspire uma postura mais modesta por parte de analistas e estrategistas. Talvez não.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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