Luís Eduardo Assis

 

Apressemos os relógios: estamos no primeiro semestre de 2025. Desde que o presidente Lula nomeou o atual presidente do Banco Central, o mercado tem se contorcido em cólicas frenéticas. O novo chefe da autoridade monetária é um professor universitário, há décadas filiado ao PT, sem nenhum vestígio de experiência no mercado financeiro. Sua indicação contrariou o ministro Haddad, mas contou com o entusiasmo dos que acham que a ‘verdadeira independência’ do Bacen está em se liberar dos dogmas do neoliberalismo e não se curvar aos interesses do mercado. Candidamente, o novo presidente já tinha adiantado na sabatina do Senado que seu objetivo no cargo é controlar as taxas de juros. Para ele, juros altos cevam os rentistas, oneram as empresas e geram desemprego. A saída é pela frente, explicou. A taxa Selic deve ficar em linha com a inflação. Nada de juros reais positivos. Com menores despesas financeiras, as empresas poderão reajustar menos os preços. Juros baixos também estimulam o crescimento, e, portanto, a arrecadação, ajudando o Tesouro. Desde o começo do ano, o Bacen vem controlando não só a curva de juros, mas também a taxa de câmbio, que passou a ser o principal instrumento de combate à inflação. A combinação de câmbio barato e juros baixos estimulou uma forte saída de capitais, com queda de reservas. Isso obrigou o Bacen a restringir as remessas, propiciando o retorno triunfal do mercado paralelo do dólar. Há forte pressão de empresários contra a valorização cambial, já que isso barateia as importações e pode dizimar o que resta da indústria. Mas os grandes devedores aplaudem a queda forçada da Selic. As previsões de crescimento do PIB para 2025 são cada vez mais altas, embora ninguém saiba quanto isso dura. A motivação para a escolha de um economista heterodoxo nasceu no ano passado, em 2024, quando a alta das commodities e o agravamento da guerra da Ucrânia levaram o presidente Campos Neto a comandar no Copom uma forte elevação da Selic (contando ainda com a maioria dos membros indicados por Bolsonaro). A alta da Selic afundou de vez o crescimento da economia, que já vinha claudicando, colaborando para o desastroso resultado do PT nas eleições municipais.

De volta a 2023: não, isso não vai acontecer. O presidente Lula não faria a parvoíce de promover uma mudança radical no Banco Central. Não faria, principalmente, porque isso seria prejudicial à sua própria estratégia de reeleição em 2026. Não faria porque seria contraproducente. Certamente não faria. Ou faria?

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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