Luís Eduardo Assis

 

Nem sempre é assim, mas o ano novo dessa vez traz novidades. Talvez a mais relevante seja a ampliação do orçamento para o rejuvenescido Bolsa Família. Em 2023, mais de 21 milhões de famílias receberão R$ 600 reais mensais, o que deve superar R$ 150 bilhões de auxílio. Isso representa um incremento de mais de 60% em relação ao benefício que foi pago em 2022, na malfadada tentativa bolsonarista de estelionato eleitoral. O montante de 2023 equivale a algo como 1,5% do PIB. Para comparar: em 2010, último ano de Lula, o Bolsa Família foi distribuído para 12,6 milhões de famílias com um valor médio de R$ 88,80 (ou R$ 181,30 atualizados para 2022), o que representou só 0,68% do Pib. “Nunca antes na história desse país” houve um programa de transferência de renda tão significativo quanto o que começa agora. Sua eficácia pode ser maior se o novo governo for capaz de limpar o Cadastro Único das distorções criadas no governo Bolsonaro. O número de famílias unipessoais cadastradas saltou de 1,8 milhão em dezembro de 2018 para 5,5 milhões em outubro último, uma resposta da população a uma regra burra, que permite multiplicar o benefício com registros individuais de membros de uma mesma família. O Tribunal de Contas da União também detectou que 79 mil militares são beneficiários do auxílio. Por outro lado, pesquisas indicam que apenas uma pequena parcela dos moradores de rua tem acesso ao benefício. Rever o Cadastro Único e focar em quem realmente precisa é uma das tarefas mais urgentes do novo governo – pena que o PT, tradicionalmente, não demonstre apego a tarefas meramente operacionais como essa. Mas, tudo somado, a parcela da população em extrema pobreza (8,4% em 2021) deve cair em 2023. Essa é uma excelente novidade.

Na outra ponta, também se comemora- com champanhe. Se para os muito pobres a vida pode ficar menos difícil, para os muito ricos ela vai melhorar ainda mais. Com juros na estratosfera, os patacudos que são considerados clientes “Private” (em geral, investidores com mais de R$ 5 milhões) vão receber uma renda extra muito generosa. Apenas com a taxa Selic, os titulares dessas contas – cerca de 146 mil felizardos apenas – poderão, sem correr riscos, engordar suas contas em mais de R$ 230 bilhões, líquidos de IR, ou R$ 128 bilhões se descontarmos a inflação esperada. É assim o Brasil. Quando os mais pobres ganham, os muito ricos ganham mais ainda. Enquanto a taxa de juros for a única forma de combater a inflação nossa política econômica será uma usina de iniquidades.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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