Luís Eduardo Assis

 

Em outros tempos, poderia ser dito que muita tinta e papel foram gastos para avaliar a estultice do presidente Trump ao elevar de um golpe as tarifas de importação. Hoje é melhor fazer menção às muitas impressões digitais que foram apagadas teclando as críticas ao gesto alucinado. As avaliações diferem no conteúdo, mas se assemelham nas conclusões: a majoração desvairada das tarifas provocará desemprego, aumento da inflação e, possivelmente, elevação das taxas de juros. Sem falar que inibirá o investimento direto em indústrias nos Estados Unidos, dada a incerteza que dela deriva. O tarifaço foi uma medida desnecessária,voluntária, espontânea e radical – e vai provocar o contrário do que se busca. A questão relevante, portanto, parece ser mais simples: por que isso aconteceu? Por que esse gesto histórico de autoflagelação?

Há, pelo menos, três ingredientes nessa explicação. O primeiro é um gigantesco erro de diagnóstico fundamentado em teses econômicas estapafúrdias. Trump genuinamente acredita que é preciso tomar medidas urgentes para recuperar a economia americana. Mas o PIB dos EUA cresceu nesse século 72%, contra 44% da União Europeia. Como assim “great again”? Há também uma inacreditável confusão entre as contas públicas e a contabilidade empresarial, o que contraria conceitos econômicos elementares. Na sua linguagem infantil, o presidente reiteradamente confunde saldo da balança comercial com o lucro de uma empresa privada, entre outras aberrações. Dá zero pra ele. Um segundo ponto é determinado pelos traços (sejamos generosos) de personalidade psicopática do primeiro mandatário, o que o empurra para uma gestão autocrática. Ele pensa que consegue encontrar soluções para problemas que sequer consegue enunciar com clareza e, para piorar, se cercou de acólitos incapazes de esboçar um contraponto. Completa o quadro um capricho de coincidências, raro de acontecer na democracia americana. Com uma Suprema Corte conservadora (a mais conservadora em 90 anos) e maioria no Congresso e no Senado, Trump tem, por ora, amplo raio de manobra para a prática do obscurantismo econômico.

O cenário é lúgubre, mas as perspectivas não são ruins. Justamente porque o tarifaço é uma maluquice que surtirá efeito contrário ao esperado é mais que provável que seja rejeitado pelo eleitor americano. As pesquisas já mostram queda na popularidade do governo e as manifestações populares crescem. As eleições de meio de mandato em 2026 podem reequilibrar o jogo. O sistema de pesos e contrapesos não funcionou na prevenção de medidas econômicas ilógicas, mas a lógica política poderá mitigar os efeitos dessa insanidade. A democracia ainda é o melhor antídoto contra ideias venenosas.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
Email: luiseduardoassis@gmail.com