Luís Eduardo Assis

 

É doce ingenuidade imaginar que a campanha eleitoral poderá servir para um debate profundo sobre as vicissitudes econômicas do Brasil e orientar as medidas que o próximo presidente virá a tomar. Deveria ser assim, claro. O período pré-eleitoral poderia servir para o embate de propostas e a apresentação de compromissos. Mas até as capivaras do rio Pinheiros sabem que não é dessa forma que funciona entre nós. Há, tradicionalmente, uma corruptela de programa de governo para a campanha e, mais adiante, o enfrentamento das duras condições para a adoção das medidas que forem mais convenientes, dentro daquilo que é politicamente viável.

Dessa vez é um pouco pior. O que Bolsonaro pode dizer sobe a política econômica de um eventual (sugere-se aqui fazer o sinal da cruz) segundo mandato? O truque de chamar o Posto Ipiranga não funciona mais e uma tentativa similar será apenas vexatória. Mesmo a cascata verborrágica de Paulo Guedes virou hoje apenas o que sempre foi: cascata. O governo atual, patrocinador emérito da PEC da Esculhambação Fiscal, tem muito pouco a oferecer mesmo quando o jogo é apenas atirar sobre a mesa propostas populistas genéricas. Depois do fracasso exorbitante do atual governo, Bolsonaro terá dificuldade até mesmo para mentir.

Nas hostes petistas, avançar em um programa de governo também é oneroso. Começa pelo fato de que não há necessidade premente de apresentar algo que faça sentido. O eleitor médio se conforta com promessas tão vagas quanto generosas, daquelas que não cabem no orçamento. Claro que não se poderá argumentar que o dinheiro virá do combate à corrupção, tema constrangedor para o partido, mas sempre será possível fugir de questões específicas com respostas etéreas que remetam aos deveres metafísicos da solidariedade entre os homens. Mas o que impede mesmo o avanço na definição de um programa do PT é saber se a política econômica de Lula será petista. O mercado financeiro se conforta em pensar que não, enquanto os economistas ligados ao partido travam uma luta intestina, movida por um misto de vaidade e fé, que transforma o grupo em um ninho de mafagafos. Para a campanha, de qualquer forma, não interessa avançar em propostas, já que parece suficiente explorar o resultado caótico da política atual. Tudo somado, ficaremos com poucas pistas para adivinhar quais medidas nos aguardam no próximo ano.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
Email: luiseduardoassis@gmail.com