Luís Eduardo Assis
O Brasil, sabe-se, envelheceu antes de ficar rico. A expectativa de vida do brasileiro atingiu 76,4 anos para os nascidos em 2023. Essa marca é ligeiramente menor que a expectativa dos italianos em 1990, há 35 anos. Nossa renda per capita em 2023 era de US$ 21,17 mil, no conceito de paridade de poder de compra. A renda per capita italiana de 1990, ajustada pela inflação do período, seria hoje algo como US$ 43,2 mil. Em 1990 nossa renda média era de apenas US$ 6,69 mil. Envelhecer pobre é uma experiência nova para um país e o Brasil lidera essa mudança.
Há uma miríade de consequências, mas duas se destacam. A primeira, claro, é sobre as finanças públicas. Gastos com previdência e saúde, que já pressionam o orçamento, tendem a ganhar espaço ao longo do tempo, o que acirrará o conflito pela disputa de dinheiro público. Em algum momento, as regras para a aposentadoria deverão ser revistas novamente, alterando a idade mínima e desvinculando o benefício do salário-mínimo. Na saúde, a margem de manobra é menor. O Ministério da Saúde estima que 8,5% das pessoas com mais de 60 anos sofram de algum tipo de demência, exigindo cuidados que vão muitas vezes além da atenção da família. Para 2050, a estimativa é de 5,7 milhões de idosos afetados – sem falar nas outras doenças. Na outra ponta, em tese, gastos com educação infantil poderiam abrir espaço, já que a população nessa faixa etária é cada vez menor. Para a cidade de São Paulo, por exemplo, a Fundação Seade estima que o número de pessoas com menos de 14 anos tenha caído de 2,59 milhões em 1990 para 2,26 milhões em 2025. Prevê-se que serão apenas 1,77 milhão em 2050. Nasceram 2,52 milhões de brasileirinhos em 2023, o que configura a menor taxa de natalidade desde 1976. Trata-se da quinta redução consecutiva em números absolutos, com queda de 12% em relação à média entre 2015 e 2019. Mas hoje é ilusório imaginar que os gastos com educação básica possam recuar. Outra revolução se dá na organização do setor produtivo. Bens e serviços direcionados aos mais velhos tendem a crescer de forma desproporcional ao avanço do PIB. O número de farmácias, apenas um exemplo, passou de 68 mil em 2012 para cerca de 100 mil hoje. Nesse mesmo período, a fabricação de brinquedos caiu 60,8% (em boa medida, sob influência da demografia, além de outros fatores). Há adaptações simples. No Japão, desde 2011 a venda de fraldas para adultos supera a venda para crianças. Mas nem sempre é tão fácil – como devem saber os fabricantes de chupetas.
O tic-tac dos relógios é a máquina de costura do tempo a fabricar mortalhas, nos disse Mário Quintana. Parece agora que as mortalhas são mais elaboradas, demoram mais para ficarem prontas. Isso muda tudo. Quem viver, verá.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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