Luís Eduardo Assis

 

A foto que circula pelas redes sociais mostra a capa de um antigo livro infantil em que uma garota aprende a fazer um conta inusitada: ela subtrai 5 de 4 e o resultado é 9. O título do livro (“Counting with Kwasi”) faz referência, com a solerte ironia britânica, ao desastre das ideias estrambóticas do ministro da Economia , Kwasi Kwarteng, recentemente defenestrado pela primeira-ministra Liz Truss, na vã tentativa de salvar o próprio pescoço. A matemática heterodoxa do ministro do Partido Conservador parte do princípio de que corte nos impostos pode aumentar em um primeiro momento o déficit nas contas públicas, mas também impulsiona a economia. Isso, pensava ele, faz a arrecadação de impostos subir mais adiante e, dessa forma, fecha o hiato do rombo no orçamento. Deu tudo errado. O mercado se contorceu em cólicas (tinha comido antes derivativos que não desceram bem), a libra despencou e os juros longos dispararam, levando com eles o ministro, que foi para o espaço, logo seguido pela própria Liz Truss.

Aqui em terras tabajaras nós conhecemos devaneios assemelhados, ainda que com sinal trocado. A Nova Matriz Econômica também acolhia o doce pensamento de que é possível fazer ajustes indolores. Há quem pense que o aumento do gasto público estimula o crescimento e se autofinancia, razão pela qual não devemos nos preocupar com a despesa do governo. A justiça social, sempre necessária, não deve se curvar a lógica tacanha dos números. Já aprendemos, antes dos britânicos, que isso não dá certo. Mas a tese é cativante, principalmente em tempos de eleição. Reclama-se que o debate eleitoral é pobre em propostas econômicas. Mas não é difícil compreender que questões fiscais não geram simpatia, já que as pessoas que serão chamadas a pagar a conta da farra fiscal de 2022 são também eleitores. Uma reforma tributária – e não escaparemos dela se quisermos parar de andar em círculos – sempre onera alguns setores, que tendem a reagir de forma muito mais intensa do que a receptividade daqueles que pagarão menos impostos. Não é tema para eleição. Mais fácil fazer divagações metafísicas atribuindo todos os males à corrupção ou prometendo um mundo melhor, mais justo e mais feliz. Quem será contra? O fato é que em 2023 teremos um acerto de contas com a irresponsabilidade fiscal. Os juros serão ainda muito altos e o novo governo terá dificuldades para encaixar suas promessas no orçamento. As soluções mágicas são sempre muito tentadoras. Seria muito bom se elas também funcionassem. A matemática é cruel com quem a ignora.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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