O Estado de São Paulo : 22.01.2018
A ideia de que o progresso técnico sempre fez parte do desenvolvimento humano e avança de forma contínua é quase intuitiva. Todos os dias, há muito tempo, somos informados a respeito de algo inédito que melhora, de alguma forma, nossas vidas. Mas a verdade é que nem sempre foi assim. Como aponta Steven Landsburg, nos 100 000 anos de existência do homem moderno pouca coisa mudou nos primeiros 99 800. A maioria da população mundial viveu este período “inicial” com recursos pouco acima da subsistência. Foi a revolução científica e sua aplicação aos processos de produção que transformaram o mundo de forma radical e definitiva. Robert Gordon publicou recentemente um portentoso livro (“The Rise and Fall of American Growth”) que adiciona um novo elemento a este tema. Para ele, as mudanças mais importantes ocorreram entre 1870 e 1970. Foi neste período que a vida quotidiana experimentou uma mudança radical de paradigma, no rastro de um fluxo torrencial de invenções. A partir de 1970, segundo ele, a economia americana entrou em uma fase de retornos marginais decrescentes. Inovações ainda ocorrem, claro, mas a um ritmo menos intenso e sem o impacto devastador do período anterior.
A tese é provocativa. A História dirá se Gordon tem ou não razão. Com as lentes desfocadas do presente, o que se pode dizer é que as inovações tecnológicas continuam rompendo paradigmas e provocando transformações profundas na forma de organização da economia e da sociedade. O impacto das ‘fintechs” de crédito digital, por exemplo, pode ser imenso. Estamos aqui falando de portais que replicam, de forma mais rápida e eficiente, o papel dos bancos tradicionais de transferir recursos de investidores para tomadores de empréstimo. O procedimento, embora revolucionário, é simples do ponto de vista tecnológico. Qualquer investidor pode acessar o portal e escolher um mix de tomadores ao qual é associado um ‘rating’ de crédito, facilmente fornecido por uma agência terceirizada, e uma taxa de juros. Riscos maiores comandam taxas mais altas, com o que o investidor pode escolher a combinação que mais lhe convenha. A vantagem é que esta desintermediação do sistema bancário propicia maiores retornos aos investidores e menores custos para os tomadores de empréstimos. O portal ganha apenas uma comissão por ter feito o ‘matching’ entre as duas pontas. Nos Estados Unidos, a maior empresa de crédito digital, Lending Club, já patrocinou empréstimos de mais de US$ 30 bilhões. É ainda pouco em comparação com empréstimos tradicionais, mas a taxa de crescimento é elevada.
No Brasil, já engatinhamos nesta direção. O ambiente é favorável, até porque o ‘spread’ bancário continua pantagruélico (20 pontos percentuais em novembro último, segundo o Bacen) e é dele que se nutrem as empresas que promovem a desintermediação. Mais que isto, a queda das taxas de juros tornou os investidores mais dispostos a correr riscos. Avanços no crédito digital podem mudar a face do sistema bancário, reduzindo a importância dos bancos de varejo na captação de recursos e na distribuição de crédito. Já se falou do fim do telefone, dos jornais e da televisão. Não tardará para discutirmos o fim dos bancos, na forma que hoje os conhecemos. Atolado na discussão de temas emergenciais, o Banco Central erra ao se atrasar na definição de um marco regulatório que proteja investidores e tomadores. Melhor absorver esta inovação e coloca-la sob sua guarida. O futuro chega todos os dias – as vezes mais, as vezes menos. É sempre bom estarmos preparados.
Economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP. Email: luiseduardoassis@gmail.com