O Estado de São Paulo : 12.12.2016

A recessão é crudelíssima. As estatísticas econômicas pingam tragédias quotidianas. A taxa de desocupação passou de 6.8% em janeiro de 2015 para 11,8% em outubro passado. O número de desempregados chegou a 12 milhões. A produção da indústria de transformação em outubro de 2016 foi menor que a de outubro de 2002. A renda real dos 10% mais pobres caiu 7,7% em 2015, queda influenciada pelo congelamento dos benefícios do Bolsa Família. Para onde se olha, o quadro é de grande desolação.

Mas será mesmo?  Prestando atenção em silêncio, é possível ouvir uma música suave, frouxos de riso e tilintar de taças no último andar. O mesmo 2016 horroroso para quase todos tem sido extremamente favorável para os muito ricos. A Anbima compila estatísticas para investimentos de clientes classificados no segmento de “Private Banking”. Entre o final do ano passado e setembro último, o volume de recursos administrados destes clientes passou de R$ 712,5 bilhões para R$ 816,31 bilhões, um crescimento de 14,6%. O total de clientes bacanas quase não cresceu : de 109,9 mil para 110,3 mil. O volume de investimentos por cliente saltou de R$ 6,48 milhões para R$ 7,4 milhões . Na média, estes clientes obtiveram um aumento no patrimônio de pouco mais de R$ 100 mil por mês em 2016. Nada mal para um ano em que tudo dá errado.

São os juros altos que explicam a maior parte desta fartura. A taxa de juros reais dos últimos doze meses está em 6,5% e é a mais alta desde setembro de 2009. Olhando para frente, os juros também são altos. A comparação dos papéis prefixados de um ano contra a expectativa de inflação para os próximos doze meses gera um taxa real de 7%. Por que os juros são tão altos no Brasil?  Aprendemos  recentemente que não se trata de tema para amadores. O governo anterior acreditava que era apenas uma questão de vontade. Entre agosto de 2011 e março de 20133 o Banco Central promoveu dez cortes na taxa Selic. Deu tudo errado. O único legado positivo deste experimento foi provocar o consenso de que não é assim que se faz. Até as entidades de esquerda que apoiam o PT sabem disso hoje. No documento “Por um Brasil Justo e Democrático”, de setembro de 2015, pode-se ler (página 49 do volume II) que “a redução da taxa de juros não é um processo decorrente apenas da vontade política do governante” .  Mas se não é na marra – e definitivamente não é  – como poderia ser ?

Esta discussão é urgente e representa enorme lacuna na agenda de mudanças que hoje se debate. Não vale falar que os juros cairão quando o ajuste fiscal for equacionado. Além do ajuste fiscal, o que pode ser feito?  Também não faz muito sentido argumentar que os juros altos resultam da desconfiança do mercado. Isto ocorreria se as taxas fossem livremente pactuadas, o que não é caso. Quando os juros foram cortados de forma irresponsável em 2011 não houve nenhum problema na rolagem dos títulos – os problemas foram outros.  Ganharíamos todos se o governo introduzisse na pauta de reformas mudanças que aumentassem a eficácia da política monetária e permitissem um corte significativo e duradouro dos  juros. A desindexação  é um exemplo. Em grande parte, ainda lidamos com o restolho da indexação que tínhamos quando a inflação era muito alta. É urgente reduzir o grau de indexação.

Vivemos hoje o constrangimento moral de promover o enriquecimento dos que tem muito, ao passo que aos mais pobres é solicitada uma dose desproporcional de sacrifícios. É  fundamental avançar nos pré-requisitos que permitam corrigir esta vergonhosa injustiça.

Economista. Foi  diretor de política monetária do Banco Central  e professor da PUC-SP e FGV-SP. Email: luiseduardoassis@gmail.com