Luz amarela (fraca, mas já piscando)
Luís Eduardo Assis
Difícil aferir com precisão o impacto da insânia tributária do presidente Trump contra as exportações brasileiras. A dor da pancada depende de múltiplos fatores. Produtos com baixo grau de substituição e pequena elasticidade preço da demanda (ou seja, cujas vendas respondem pouco à oscilação de preços) sofrerão menos. Se o Brasil, além disso, tiver uma participação significativa no mercado americano, dificultando a substituição por outro fornecedor, melhor ainda. Nesse caso, os produtos ficarão mais caros e quem vai pagar a conta é o consumidor americano. Há também produtos que poderão, ao longo do tempo, ser redirecionados para outros países – não será fácil. Mas é inevitável algum recuo nas exportações, até porque parcela dos produtos exportados poderá ser alocada para o mercado interno.
A birra do presidente americano não vem em boa hora. O desempenho do setor externo brasileiro está longe das manchetes, mas já teve melhores dias. O saldo comercial fechou em US$ 54,6 bilhões no acumulado de doze meses até junho último. Ainda alentado, mas 37,5% menor que no mesmo período anterior e 44% mais baixo que no pico de fevereiro de 2024 (US$ 97,7 bilhões). Caiu por quê? Por que caiu? As exportações estão praticamente estagnadas em torno de US$ 330-340 bilhões anuais desde o último trimestre de 2022. Já as importações subiram de US$ 251 bilhões em 2023 para US$ 284 bilhões nos doze meses até junho. Modelo econométrico simples mostra que cerca de 80% do valor das exportações pode ser explicado pelo comportamento do preço das commodities, cujo índice de preços (calculado pela revista The Economist) patina no mesmo lugar desde o início de 2023, após forte recuperação na saída da pandemia. Já 88% da trajetória das importações deriva do nível de atividade, medido pelo IBC-Br. Esse índice está crescendo a uma taxa anual acima de 4%. O preço das commodities aqui é menos relevante. O recuo da balança comercial joga pressão sobre o já tradicional déficit em transações correntes. Nos doze meses até junho último, ele alcançou US$ 73,1 bilhões, o maior em quase dez anos. Por mais de quinze anos, a partir de 2008, nossas reservas internacionais foram maiores que a nossa dívida externa. Desde fevereiro do ano passado já não é assim. Em junho de 2025, a dívida externa superava as reservas em US$ 19,8 bilhões.
O quadro está longe de desesperador. Mas a exuberância do setor externo ficou no passado. Isso recomenda cautela e pragmatismo ao governo, ao lidar com a estultice tributária do presidente Trump. Não é fácil negociar quando a outra parte exige nada menos que a humilhação. Resta torcer para que o presidente Lula seja o adulto na sala. A esse ponto chegamos.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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