Così è (se vi pare)

Luís Eduardo Assis

 

A ideia aparentemente trivial de que a realidade molda e condiciona as percepções é capciosa e permite qualificações. “Assim é (se lhe parece)”, já alertava Pirandello em peça de 1917. Mais recentemente, Martin Wolf, articulista econômico do Financial Times, deu novas cores à tese ao afirmar que “hoje as pessoas não têm apenas opiniões; têm seus próprios fatos”. O mundo são ilusões.

O presidente Trump, como se sabe, adotou o desatino como método. O mercado arrepiou e as bolsa caíram. Entre sua posse e o começo de maio, o índice Dow Jones caiu 6,4%, o S&P recuou 6,6% e o Nasdaq despencou quase 10%. Isso pesa muito em um país em que 62% da população detém ações, segundo pesquisa recente da Gallup. Houve uma queima de capital da ordem de trilhões de dólares. Ainda assim, pesquisa do YouGov encomendada pela revista The Economist realizada na primeira semana desse mês detectou que 43% dos investidores republicanos achavam que o mercado acionário estava em boa ou ótima condição. Entre os acionistas democratas esse percentual era de apenas 16%. A maior parte dos investidores republicanos simplesmente não concordava com o fato – insofismável – de que o mercado tinha caído desde a posse do novo presidente. Percepção é realidade, já disse Lee Atwater, analista político americano.

Vivemos um pouco disso também. A economia brasileira tem notórias inconsistências temporais. Caminhamos na direção errada, dada a incapacidade conceitual e política do governo definir um projeto consistente. Predominam as ideias erradas. Mas não há, por ora, crise econômica, como mostra a expansão do PIB no primeiro trimestre de 2025. O crescimento anualizado registrou 3,5% (contra 2,8% em março de 2024), uma demonstração clara de relativo dinamismo. Sim, a inflação está alta, mas não fora de controle. O desemprego de abril foi o menor da série histórica, a massa de rendimento real efetivamente recebido cresce a uma taxa anualizada de 7,7%, o total de trabalhadores com carteira assinada (48,12 milhões) é recorde e o salário-mínimo real já cresceu 7% desde a posse do novo governo. Como não há consistência na política econômica, presa fácil de um governo encharcado de ideias populistas, é de se esperar uma deterioração nos indicadores de atividade, o que deverá agravar a descoordenação política. A baixa popularidade do governo deriva da incompetência em criar na sociedade uma sensação de bem-estar – não de uma crise econômica que não existe. A perda de credibilidade em uma gestão incapaz de promover mudanças que vão além do mero assistencialismo cobrará um alto preço em 2026. O eleitor vota de acordo com sua percepção e a percepção é a de um governo sem rumo.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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