Luís Eduardo Assis

 

Sem dispensar a fanfarra, o governo divulgou recentemente pesquisa do IBGE (“Rendimento de Todas as Fontes -2024”) que traz duas informações de grande relevância. A primeira é que o rendimento médio real de todas as fontes alcançou R$ 3 057,00 em 2024, o mais alto da série histórica, com elevação de 2,9% em relação a 2023. A segunda boa notícia é que o índice de Gini (uma medida de desigualdade) do rendimento médio mensal per capita caiu para o menor valor desde que 2012, quando o IBGE iniciou o cálculo com essa metodologia. Será mesmo?

O IBGE apura nessa pesquisa domiciliar os rendimentos do trabalho (75% do rendimento das famílias) e também os ganhos provenientes de aposentadoria, pensões, aluguéis, programas de transferência de renda e – aqui vem o problema – aplicações financeiras. Para a pesquisa, a participação dos “outros rendimentos”, onde estão as receitas com juros dos investidores, não passou de 1,6% do rendimento médio real per capita em 2024.

A pesquisa do IBGE é cuidadosa, leva em conta uma amostra muito significativa e baseia-se em critérios técnicos apurados – o que nem sempre acontece com empresas de pesquisa privadas. Mas é notória a dificuldade em apurar rendimentos financeiros através de um questionário apresentado por um pesquisador. Além da provável recusa em compartilhar informações pessoais, os bancos nem sempre informam o rendimento mensal nominal (o mais comum é reportar é a rentabilidade percentual).

Os dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), que não são amostrais e não dependem de questionários, mostram que os investimentos de pessoas físicas cresceram 12,6% em 2024 e alcançaram R$ 7,3 trilhões. Se, por hipótese, esses recursos renderam 100% da Selic o rendimento no ano passado foi de R$ 705 bilhões, o equivalente a quase 18% do rendimento habitualmente recebido de todos os trabalhos, pela pesquisa do IBGE. O extrato dos felizardos clientes “Private” fechou 2024 com investimentos de R$ 2,3 trilhões. A receita financeira desse grupo diminuto (são 162 mil contas, mas uma pessoa pode ter mais que uma conta) deve ter superado todo o gasto com Bolsa Família, que beneficiou quase 21 milhões de famílias. A moral da história é simples: é mais do que provável que as receitas financeiras estejam subestimadas na pesquisa do IBGE, o que significa que dificilmente a desigualdade ficou menor. Não é possível imaginar uma sociedade menos desigual com juros tão elevados. Ao invés de comemorar, o governo deveria se preocupar em procurar meios de propiciar a queda dos juros. Juros estratosféricos representam uma poderosa alavanca para uma sociedade cada vez mais desigual.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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