Luís Eduardo Assis
É tentador buscar explicação para o colapso da popularidade do governo do presidente Lula nos indicadores econômicos. Em um arroubo, um ex-presidente do Banco Central chegou a dizer que a economia brasileira está na UTI. Não é bem assim, em que pese o fato de que o futuro poderá cobrar caro pelos abusos fiscais do presente. O chamado “Misery Index”, criado pelo economista A. Okin em meados dos anos 70, ficou famoso por sua simplicidade e pode dar uma pista. Trata-se, na sua primeira versão, da mera soma entre a inflação anual e a taxa de desemprego. Assim calculado, nosso índice em janeiro de 2025 marcou 11,06 pontos, trazendo a média dos últimos 12 meses para 11,3, o menor índice de toda a série histórica. Ainda assim, o saldo de avaliações positivas e negativas do desempenho do presidente Lula na pesquisa CNT de fevereiro registrou 18 pontos negativos. O baixo desemprego (6,5%) e a inflação moderada (4,6%) não parecem ter encantado os eleitores. Em fevereiro de 2022, o saldo de avaliações de Bolsonaro (-16,9 pontos) era melhor que agora, embora o “Misery Index” fosse quase o dobro (21,7 pontos).
Mesmo a escalada no preço dos alimentos explica mal o colapso nas avaliações. O custo da alimentação no domicílio, que faz parte do IPCA, cresceu 7,4% nos doze meses até janeiro de 2025. Mas nesse mesmo período, o rendimento médio efetivamente recebido aumentou 8,25%, alcançando R$ 3714,00 (o mais alto da série histórica, em termos reais). Ainda em janeiro, o salário-mínimo era também o mais alto da história em termos reais e tinha crescido 7,5% em doze meses, em linha com o aumento da cesta básica de São Paulo, 7,4%. A média do salário-mínimo em 2024 ficou 76% maior que no primeiro mandato de Lula e 35% acima do registrado em Lula 2, já descontada a inflação. Cálculo do IPEA mostra que a inflação anual para a população com renda domiciliar menor que R$ 2202,02 ficou em 4,04% em janeiro, contra 4,56% da média do IPCA.
A explicação econômica não é suficiente. Mais profícua parece ser a análise de que o PT, assim como o presidente Lula, que fará 80 anos em outubro, envelheceu. Na pesquisa da CNT, 59% dos eleitores com 60 anos ou mais aprovam o desempenho do presidente, contra apenas 33% na faixa entre 25 e 34 anos. Seus pilares históricos (os sindicatos, a igreja católica, os intelectuais de esquerda) se enfraqueceram ou encontraram outras preocupações – e o partido foi incapaz de encantar a massa de eleitores com novos sonhos, projetos e ideias. Ao insistir com a pauta antiquada, a começar pelo desprezo com a responsabilidade fiscal, colabora de maneira eficaz para que a extrema direita seja reconduzida ao poder em 2026.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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