Luís Eduardo Assis
A discussão a respeito da recompensa como elemento motivador de comportamentos é secular e perpassa todas as atividades humanas. As grandes religiões monoteístas, por exemplo, exprimem com clareza o que os fiéis devem fazer ou deixar de fazer. Não apenas porque ser bom e correto é uma finalidade em si mesma, mas porque dessa maneira receberão em troca uma infinidade de benesses após a morte. Foi o filósofo Immanuel Kant quem, no século XVIII, jogou luz sobre esse tema ao traçar a distinção entre imperativo hipotético e imperativo categórico. O primeiro é baseado em condições que implicam consequências. É preciso fazer o bem para ir para o céu, por exemplo. Já o segundo dispensa conjecturas a respeito das consequências e se restringe a ser uma lei moral, absoluta, verdadeira na sua essência. É preciso fazer o bem porque essa premissa é a essência da nossa racionalidade. Trata-se de um propósito cuja verdade prescinde de suas consequências.
O debate econômico atual no Brasil está repleto de exemplos que ilustram o tema. Há quem argumente, por exemplo, que é preciso combater a corrupção porque se ela for erradicada poderemos crescer mais. Tolice. Não há forma objetiva de se medir a corrupção (embora sua percepção seja objeto de uma pesquisa internacional) e sua relação com crescimento é muito difícil de ser aferida. É preciso combater a corrupção porque ela é um mal, ponto. Da mesma forma, há quem diga que é preciso investir em educação para que se aumente a produtividade geral da economia. É verdade que a produtividade depende da educação. Mas não é necessário acreditar nisso para perceber que a educação é uma necessidade em si mesma, se quisermos que os brasileiros desenvolvam seus talentos e interesses em sua plenitude. O mesmo ocorre com o combate à fome. Depõe contra nossa higidez moral argumentar que é preciso acabar com a fome como forma de incrementar a geração de riquezas econômicas. A fome é uma mancha que envergonha a sociedade brasileira e isso basta para tornar sua extinção prioritária. Na selva corporativa, a cantilena costumeira é que é preciso promover a diversidade porque, dessa forma, os lucros das empresas aumentam. Aqui é ainda pior porque é difícil, metodologicamente, isolar a diversidade e estabelecer uma relação de causa e efeito entre ela e a lucratividade. Mas isso também é desnecessário. Combater a discriminação e o preconceito, vícios abjetos, promoverá a diversidade, com ou sem lucros maiores. Não deveríamos precisar de pequenos subterfúgios utilitaristas para perseguir objetivos grandiosos.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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