Luís Eduardo Assis
A divulgação do IPCA de maio revelou um índice mais baixo que a expectativa dos analistas – não é primeira vez. Com isso, a inflação dos últimos 12 meses está em 3,9%, o menor percentual desde outubro de 2020. Estávamos então no auge da pandemia. A inflação anual de serviços tinha ficado em apenas 1,4% e os preços monitorados não cresceram mais que 1,5%, por conta, basicamente, da queda do preço do petróleo, que chegou a US$ 25 o barril em abril de 2020, pouco mais que um terço do preço atual. Com o índice de maio, os juros reais cravaram 9,2% nos últimos doze meses, muito acima da média registrada nos últimos dez anos, 2,6%. Uma exorbitância.
A queda da inflação veio acompanhada de outros indicadores positivos, para comiseração dos pessimistas. No final de 2022, um luminar do mercado financeiro previu que em 2023 a taxa Selic bateria 16%, com o dólar valendo R$ 6,00 e a bolsa em 80 mil pontos. Todo mundo erra, mas só os economistas capricham. A queda da inflação foi resultado do “esforço” do Banco Central em manter juros em níveis siderais? Vejamos. A maior contribuição para a queda da inflação veio dos produtos “comercializáveis”, assim chamados pelo Banco Central. São bens cujos preços guardam forte correlação com os preços das commodities nos mercados internacionais (71,4% para variações anualizadas entre dezembro de 2000 e maio de 2023). O ICBr, índice que mede a variação dos preços das commodities em reais, despencou de 32,1% na variação anual até junho de 2022 para – 20% (sim, variação negativa) no mês passado, a maior queda desde 1999. Eis aqui o nosso herói. Difícil acreditar que a taxa Selic possa ter influência sobre essas cotações. Mesma a queda do dólar pode ser vista como um fenômeno externo, já que também ocorreu em relação à moeda de muitos outros países. A inflação dos ‘comercializáveis’ atingiu 13,7% em maio de 2022, para mergulhar para 4,8% na variação anual do mês passado. Essa categoria de preços guarda uma correlação de 89% com a variação do IPCA. Os preços dos serviços, que explicam algo como um terço do IPCA, esses sim são afetados pelos juros. Juros altos geram desemprego, que refreia a remarcação dos serviços. Mas aqui a colaboração foi tímida. Depois de atingir seu pico em 8,9% em julho do ano passado, a inflação de serviços caiu para 6,5% em maio último. Devemos agradecer ao Banco Central pela queda recente da inflação? Só se formos muito educados. Não fossem as condições externas favoráveis, teríamos que amargar a feroz radicalidade do Bacen por muito mais tempo.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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