Luís Eduardo Assis
Amanhã será terça feira, mas em geral é mais difícil adivinhar o futuro. Ainda assim, esta é a essência de muitas profissões, desde o batedor de pênalti que tenta saber para que lado se jogará o goleiro até o médico a quem se pede o prognóstico de um câncer. Os economistas também se esforçam e desenvolveram modelos matemáticos sofisticados para essa tarefa – com resultados menos que espetaculares.
Prever a inflação é particularmente árduo. Os economistas consultados na pesquisa Focus do Banco Central erram com muita facilidade. No final de 2014, por exemplo, eles previam que a inflação de 2015 seria 6,6%. Ficou em 10,7%, quase o dobro. No final de 2021, a previsão para 2022 era de um IPCA de 3,3%. Veio 10,1%, mais que o triplo. O ano passado foi mais curioso. A estimativa no começo do ano era que a inflação de 2022 ficaria em 5%. Em junho a previsão para o ano subiu para 8,5%. Mas no segundo semestre a inflação despencou, puxada pela queda dos preços administrados que os economistas não previram, e acabou fechando em 5,8%, perto da previsão inicial. O Banco Central não deixa por menos. Há quatro meses, desde dezembro, sua previsão mensal tem sido superior à inflação efetivamente medida. A autoridade monetária, com notável autocomplacência, chama esse erro de “surpresa inflacionária”.
Todos erramos. O problema é que o Bacen acredita que as previsões de inflação devem orientar a política de juros, já que as expectativas podem se materializar e se transformar em profecias autorrealizáveis, exigindo uma Selic mais alta. Essa hipótese é questionável do ponto de vista teórico, como mostrou Jeremy Rudd, economista do Banco Central Americano (ver “ Why Do We Think That Inflation Expectations Matter for Inflation?”,2021). Ninguém sabe quanto será a inflação daqui a 12 ou 18 meses. Nem em que medida essas previsões são capazes de influenciar a formação de preços hoje. Da mesma forma, não se sabe até que ponto o pessimismo do mercado financeiro com o governo Lula afeta suas previsões. Pesquisa recente da Genial Quaest mostrou que 78% dos operadores do mercado têm uma expectativa negativa da economia, contra apenas 20% da população em geral. Será que torcem contra? No desenho institucional que criamos, não há nenhum ônus para o Banco Central quando ele erra os juros para cima. É preciso instituir o duplo mandato para que a autoridade monetária se responsabilize não só pelo controle da inflação, mas também, com igual peso, pelo nível de atividade. Nossa vida ficará menos difícil se a vida do Banco Central ficar menos fácil.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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