Luís Eduardo Assis
Sabe-se pouco, compreensivelmente, sobre os hábitos de leitura do presidente Bolsonaro. Mas é provável que ele não tenha lido “O Direito à Preguiça”, do francês Paul Laguarde. A obra, de 1880, é um alentado libelo contra a sacralização do trabalho no contexto do irrompimento de relações de produção capitalistas que impingiam longuíssimas jornadas de trabalho. Para Laguarde, genro de Karl Marx, o culto ao trabalho fazia parte da ideologia de dominação burguesa que buscava justificar ideologicamente a transformação do trabalhador em mercadoria. Não, Bolsonaro não deve ter ouvido falar desse livro.
O assunto vem à tona no rastro da publicação de um ‘paper’ acadêmico oportuno. Em “Deixa o homem trabalhar? Uma análise da agenda presidencial de Jair Bolsonaro”, D. Figueiredo, L. Silva e J. Domingues destrincham o zelo com que o presidente exerce seu mister de primeiro mandatário. As revelações não chegam a surpreender, mas ainda assim são reveladoras. Entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2022, afirma o estudo, Bolsonaro trabalhou na média apenas 4,8 horas por dia. Mais que isso, a tendência ao longo do período apresenta clara tendência de queda. Em 2019, o presidente trabalhou 5,6 horas por dia, caindo para 4,7 horas em 2020, 4,3 horas em 2021 e 3,6 horas nos primeiros meses de 2022. De uma certa forma, aponta o texto, essas médias estão superestimadas, já que todos os registros com carga superior a 5 horas foram em dias em que o presidente estava em trânsito, viajando.
Por que essa agenda é relevante? Condenar a preguiça de um ponto de vista moral seria ceder a uma tentação rasa. É mais que isso. O fato é que a forma como organizamos nossas instituições exige da Presidência um laborioso esforço na tecedura de acordos, o que demanda dedicação, habilidade e paciência. Ao contrário do que pensa Bolsonaro, seu trabalho não se esgota no envio de propostas de alterações legais de vulto (o que, a propósito, acontece raramente). É preciso ouvir, barganhar, mediar, ceder e recuar. É assim que o Brasil definiu as atribuições da presidência da República. É assim que deveríamos funcionar. O direito à preguiça pode merecer considerações filosóficas de grande fôlego, embaladas ou não por motivações ideológicas. Mas se quisermos sair do buraco em que nos metemos, é da alçada do presidente preencher sua agenda com temas de interesse nacional.
Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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