Bom Augúrio

Luís Eduardo Assis

 

O ano de 2021 foi tão estranho que é prudente esperarmos ainda um pouco para termos certeza que ele acabou. Não deixará saudades, principalmente para os economistas que no final de 2020 se arriscaram a fazer previsões para o ano novo. De acordo com a pesquisa Focus do Banco Central de dezembro de 2020, a inflação oficial de 2021 seria de 3,3%. Na verdade, ela deve ter superado os 10%. A previsão do IGPM era de 4,6%. O índice fechou 2021 em 17,8%. O resultado fiscal primário era estimado em 3% do PIB. Ficou longe disso, perto de zero. O crescimento do PIB, por sua vez, seria de 3,4%, na previsão dos economistas. A estimativa hoje é de algo mais robusto, 4,5%. Pode parecer pouco, mas essa diferença significa algo como R$ 1 trilhão a mais no PIB nominal (que cresceu mais de 16% em 2021, bagunçando todos os indicadores em que ele entra como denominador). A previsão da Selic, por fim, também fez os economistas passarem vergonha. Estimava-se em dezembro de 2020 uma taxa de juros de 3% no final de 2021. Ficamos com 9,25% e ainda levamos como brinde a expectativa de que ela vai subir mais em 2022.

Foi muito diferente do que se previa, o que, no entanto, não deve abalar a autoconfiança dos economistas nos seus modelos de adivinhação para 2022. Para os mais céticos e desconfiados da profissão, talvez valha a pena conferir as previsões para os signos feitas pela Marcia Sensitiva. O vídeo que circula no YouTube já teve mais de 1,6 milhão de visualizações. Bolsonaro é de Áries e Paulo Guedes é de Virgem. Mas não é preciso ser economista nem astrólogo sensitivo para antecipar um prognóstico sombrio para os dois (e, consequentemente, para todos nós). O maior constrangimento decorre do fato de que o Banco Central se vê obrigado a subir juros para segurar a economia e debelar a inflação no contexto de um desemprego extremamente alto. Teremos nesse ano eleitoral provavelmente os juros reais mais altos desde as eleições de 2006. Para piorar, o ariano insiste em patetices que apenas conturbam o ambiente político e são incapazes de angariar adeptos para as suas ideias erradas. Há quem veja estratégia nessa mixórdia, mas é mais fácil perceber apenas estultice em seu estado mais puro. O bom augúrio é que teremos a oportunidade de debater um novo projeto para o Brasil e seguir adiante, deixando para trás o martírio que nos legará essa gestão. Isso é animador. Que 2022 passe logo.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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