Luís Eduardo Assis

 

Pequena conjectura: se você fosse o presidente da República e tivesse programado chorar escondido no banheiro hoje à noite qual problema você escolheria para servir de inspiração? Com tanta coisa ruim, a escolha não é fácil. Quem sabe se desesperar com a debandada dos secretários do Paulo Guedes? Ou lembrar da cena das pessoas buscando restos de comida em caminhão de lixo? Não faltam bons temas, mas para hoje se a escolha tiver que ser em algo diferente vale a pena se inspirar no risco de greve dos caminhoneiros.

Já aconteceu em 2018 e não chega a ser novidade. Em maio daquele o ano o país parou e o presidente Temer teve que usar todas suas mesóclises para sair de uma enrascada feia. O preço do diesel tinha subido quase 20% no acumulado dos doze meses. O rendimento médio mensal dos trabalhadores por conta própria, onde se incluem os caminhoneiros, era equivalente ao preço de 440 litros de diesel. Hoje, a variação anual do preço do diesel está perto de 40% e o rendimento dos trabalhadores por conta própria em julho, último dado disponível, comprava apenas 407 litros do óleo. Em termos reais, deflacionado pelo IPCA, o diesel em setembro custava 8,8% mais do que na época da greve de 2018. Nos momentos em que não se empenha em derrubar o teto de gastos, a Câmara Federal aprovou em primeira votação a mudança na forma de incidência do ICMS, que passaria de um percentual do preço a uma alíquota fixa em reais, reajustada anualmente. A estimativa é que isso poderia reduzir o preço do Diesel em algo como 3,7%, o que não chega a consolar ninguém. A proposta coloca os Estados na posição de um ‘trader’ da Faria Lima. Com o ICMS atrelado ao preço da bomba, os secretários de Fazenda estão simultaneamente ‘comprados’ em dólar e em petróleo. Ganharam bastante nessa posição, o que ajuda a explicar o forte aumento da arrecadação estadual nos últimos tempos. Mudar a metodologia agora equivale a travar essa posição vencedora, da mesma forma que um ‘trader’ vende ações ou dólar depois de uma puxada nos preços. Como reza o jargão de mercado, lucro nunca deu prejuízo a ninguém. Seja como for, o projeto de lei deve ser considerado inconstitucional e o risco de greve continua latente, até porque as últimas parvoíces do governo na tentativa de comprar votos para 2022 só fez aumentar a cotação do dólar, pressionando para cima o preço dos combustíveis e aumentando o risco de paralisação.

 


Economista, foi Diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e FGV-SP. É autor de “O Poder das Ideias Erradas”, Ed. Almedina.
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