O Estado de São Paulo : 26.06.2017

O governo deve acreditar na máxima de que percepção é realidade. Vejamos o caso do PIB do primeiro trimestre, por exemplo. Alardeou-se com fanfarra o crescimento de 1% em relação ao último trimestre do ano passado. Só que não. O observador atento deve ter notado que os números do IBGE mostraram uma queda de 0,6% do produto do primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior. Isto mesmo. Caiu também em relação ao mesmo período do ano passado e foi o PIB mais baixo desde março de 2011. O que subiu foi o dado dessazonalizado. Os economistas gostam de utilizar modelos complexos para expurgar de uma série histórica as variações típicas de uma época do ano. Como no primeiro trimestre deste ano o produto caiu menos do que ele deveria cair, considerando a sazonalidade, é como se ele tivesse subido. É como se tivesse – mas ele caiu. Se os meteorologistas também tivessem o hábito de dessazonalizar suas séries poderiam dizer, hipoteticamente, que a média histórica de chuva no dia 26 de junho na cidade de São Paulo é de 10ml, com desvio padrão muito baixo. Se hoje chover a metade disso, um modelo bem calibrado poderia concluir que é como se não tivesse chovido. Mas se chover hoje as pessoas ainda assim vão se molhar, em que pese o modelo, cujo resultado pode variar em função da metodologia escolhida pelo pesquisador (a este respeito, vale a pena consultar “ A Sensibilidade do Ajuste Sazonal no Sistema de Contas Trimestrais Brasileiro”, de S. Zani, R. Palis e R.Ramos). O IBGE ,claro, não engana ninguém. Produz seus números com seriedade, mas não define o uso que se fará delas. Não foi ele quem bateu o bumbo.

Temos aqui duas qualificações. A primeira é que a percepção das pessoas não se altera por causa dos modelos. Em que pese o governo ter trompeteado o fim da recessão, há ainda muitos indicadores negativos. No mesmo trimestre em que se comemorou precipitadamente o fim da recessão, a taxa de desemprego bateu novo recorde histórico. Os desempregados, certamente, formam sua avaliação a respeito do governo a partir dos dados crus do dia a dia – sem ajuste sazonal. Não há aqui “rabugens de pessimismo”, na expressão feliz de Machado de Assis. Alguns indicadores do nível de atividade esboçam uma pequena recuperação. Mas queimar a largada e comemorar antes da hora o fim da recessão se encaixa na estratégia de vender a ideia de que não podemos ter mudanças no Palácio do Planalto, “justo agora quando a economia voltou a crescer”. Isto nos conduz à segunda qualificação. É ilusório pensar que vale a pena sustentar o governo atual porque ele se comprometeu, mais por conveniência do que por convicção, em se empenhar para aprovar reformas que são essenciais. O governo já claudica, atingido pelo tiroteio da delação da JBS. Novas delações virão, logo, e terão como mira justamente o chefe do Executivo. Isto significa que Temer perderá poder de barganha para angariar votos no Congresso para a aprovação de medidas que – é sempre bom lembrar – são impopulares. Não só porque as acusações de corrupção corroem a capacidade do governo conceder benesses, moeda de troca com os parlamentares, mas também porque o poder remanescente será utilizado para alongar sua permanência no Palácio do Planalto. Ou seja, as reformas já estão a esta altura em segundo plano. Se forem aprovadas, serão uma versão caricata de suas propostas originais. O mal já está feito. Não há porque compactuar com a tolerância. Melhor acertar as contas agora. Se queremos ser um país melhor, o combate à corrupção deve ser incondicional.

Economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP. Email: luiseduardoassis@gmail.com