O Estado de São Paulo : 10.10.2016
Luís Eduardo Assis *
Já se disse que ter fé é acreditar no que não se vê, cuja recompensa é ver o que se acredita. Se for assim, para ser otimista a respeito das perspectivas de crescimento da economia brasileira é preciso ter fé, muita fé. As expectativas melhoraram, sem dúvida. Isto significa que estamos no limiar de um novo ciclo de crescimento sustentável ? Não exatamente. Qual seria a origem deste novo surto de crescimento do produto?
Não seriam,por certo, os gastos públicos. A promessa do governo é de uma queda de R$ 31 bilhões no déficit primário no próximo ano, o que significa que este componente do PIB deve ser ter um papel contracionista em 2017. Esta é a própria lógica do ajuste fiscal. Não será por aí que cresceremos, até porque, sabemos todos hoje, não é assim que funciona.
Talvez o impulso para o novo crescimento venha das exportações. As vendas externas em reais (porque o PIB brasileiro é medido em reais) cresceram 21% em 2015, no rastro da desvalorização cambial. A contribuição do setor externo para o PIB foi de 2.7 pontos percentuais, o primeiro número positivo desde 2005. As exportações alcançaram um crescimento anual de 28% em maio último. Desde então, porém, passaram a desacelerar de forma significativa, mercê do novo ciclo de valorização do real. Não só o crescimento não é alto como o impacto das exportações sobre o produto é pequeno, já que a economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo. Não, não serão as exportações que sustentarão um crescimento vigoroso do PIB.
Quem sabe então o consumo das famílias ? Os gastos de consumo representam mais de 60 % do PIB e poderiam puxar o crescimento. Mas aqui também a coisa enrosca. O consumo depende da massa de salários e da concessão de crédito. A massa de salários calculada pela Fipe a partir do recolhimento do FGTS acusa uma queda de 13,1% nos doze meses terminados em junho de 2016. O desemprego continua aumentando e a inflação ainda está alta , o que corrói o poder aquisitivo. Quanto à concessão de crédito, a perspectiva é cinzenta. Em que pese a taxa Selic estar estável em 14,25% desde julho do ano passado 2015, os juros médios para pessoas físicas passaram de 36,3% em julho de 2015 para 42% em julho último. O endividamento das famílias (sem contar o credito habitacional) em relação à renda acumulada nos últimos doze meses registrou 24,9% em junho último. Vem caindo lentamente desde o recorde de 31,4% em setembro de 2011, mas ainda é alto.Com juros elevados, desemprego aumentando, salário real caindo e alto endividamento não há porque esperar grande coisa dos gastos de consumo.
Mas temos ainda os investimentos privados. A formação bruta de capital fixo estimada pelo IBGE para junho de 2016 estava 0,9% menor (sim, menor) que em junho de 2008. Investir por que, se há capacidade ociosa ? A média de doze meses do índice de utilização da capacidade instalada calculado pela CNI em julho último registrou o mais baixo nível de toda a série histórica. Há trinta e cinco meses que este indicador não sobe. As grandes empresas estão superendividadas. Pesquisa coordenada pelo Prof. Carlos Rocca, do Centro de Estudos do Instituto IBMEC, constatou que a combinação entre recessão, juros elevados e desvalorização cambial fez com que a geração de caixa das 605 maiores empresas não financeiras ficasse abaixo das despesas com juros no ano passado. Note-se que a Petrobrás foi excluída do cálculo, para não distorcer os resultados. É natural que, nestas condições, as empresas engavetem ou cancelem seus planos de expansão.
Sobram, por fim, os investimentos em infraestrutura feitos em parceria com a iniciativa privada. Aqui o governo acerta na direção, mas peca na inapetência. Após muita hesitação, divulgou em 13 de setembro o Programa de Parcerias de Investimento (PPI, já que está escrito em algum lugar que todo programa tem que ter um sigla).Foram anunciados inicialmente 25 projetos – mas no mesmo dia a lista aumentou para 34 concessões. Não há estimativa de valores e o cronograma é elástico a ponto de não marcar as datas para os leilões. A coordenação tem lacunas, a equipe é pequena e nada sugere que o governo tenha este programa como sua principal prioridade. O PPI é visto mais como um coadjuvante no esforço de reduzir o déficit fiscal do que como um programa que possa puxar o crescimento da economia.
O governo parece acreditar na Fada da Confiança, de que falou Paul Krugman em artigo famoso publicado no New York Times (“Death of a Fairy Tale”, 26/4/2012, NYT). No texto, Krugman critica os economistas que acreditavam que uma política de austeridade fiscal poderia redundar em crescimento, já que os agentes econômicos teriam disposição para aumentar consumo e investimento se pudessem ver um futuro melhor. Aqui o debate é outro, mas o argumento central se ajusta ao que hoje vivemos. Apenas a confiança não fará grande coisa. O caso da indústria é emblemático. Há uma forte correlação histórica entre o Índice de Confiança da Indústria e a produção industrial. Nos últimos dez anos, quase 90% da variação de doze meses da produção industrial é explicada pela variação do índice de confiança registrado dois meses antes. Mas esta relação mudou em 2016. A confiança melhorou bastante, mas a produção industrial continua patinando.
Confiança não é tudo. Não será a fé no ajuste fiscal que fará a economia sair do buraco – até porque um governo impopular terá dificuldades para tomar medidas impopulares. Com inflação ainda alta, juros elevados e excessivo endividamento público e privado, não há nenhuma chance de uma recuperação rápida. O crescimento virá. Mas ele mora longe e está chovendo. Vai demorar para chegar.
Economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP. Email: luiseduardoassis@gmail.com